Texto base: Gênesis 39

“O caráter de um homem faz o seu destino”. (Demócrito)

O caráter de José precisou ser aperfeiçoado antes que se tornasse o governador do Egito. José precisou vencer a tentação num nível inferior antes de vencê-la no degrau mais alto de sua liderança. Se José não fosse capaz de vencer a tentação na casa de Potifar, onde a influência dele era limitada aos negócios do oficial egípcio, como venceria as tentações quando assumisse o governo do Egito? Quando José assumisse o governo do Egito, seria o responsável por toda a administração do país. Pessoas falidas e famintas viriam de toda a parte do mundo para comprar mantimentos para a sobrevivência. Todas as negociações financeiras seriam feitas por ele. Imagine um homem sem caráter, com todo esse poder. Ele poderia usurpar o direito dos desvalidos, se deitaria com as mulheres dos viajantes e se corromperia muito fácil.

Abraham Lincoln, um dos maiores estadistas do mundo, disse: “Quase todos os homens são capazes de suportar adversidades, mas se quiser pôr à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder.” Se José não fosse capaz de vencer a tentação na casa de Potifar, jamais venceria as tentações que surgissem no posto de governador do Egito. Ao lermos a história da família de Jacó, embora a narrativa destaque a biografia de José, o capítulo 37.2 começa assim: “Esta é a história da família de Jacó…” e, no capítulo 38, a narrativa acerca dos acontecimentos com José é interrompida abruptamente para relatar o fracasso de Judá, seu irmão mais velho. Somos arrebatados com o drama vivido por José no capítulo 37, então, inesperadamente, o drama é suspenso para narrar, no capítulo 38, o fracasso moral de Judá. Assim, nos perguntamos: Qual foi o objetivo do autor sagrado com isso? – Mostrar que onde fracassou Judá, José venceu (Gn 38.26). Quando Er, o filho mais velho de Judá, casado com Tamar, morreu, Judá prometeu dar outro filho em casamento para não a deixar sem descendência. Infelizmente, Judá não honrou a sua palavra e ainda se deitou com a própria nora.

José é o que chamamos na teologia de um “tipo de JESUS”. Adão fracassou em obedecer a DEUS e se deixou vencer pela tentação (Gn 3). Assim, como JESUS no deserto venceu a tentação e o Tentador (Mt 4.1-11), antes de iniciar o seu ministério para salvar a humanidade, José também venceu o pecado antes de se tornar o governador do Egito e salvar a humanidade da fome. DEUS usou a adversidade para aperfeiçoar o caráter de José. Isso nos lembra o que o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu: “As dificuldades são o aço estrutural que entra na construção do caráter”. O caráter de José foi testado constantemente. Todos os dias o pecado bateu na porta do coração de José (v.9). Porém, o jovem hebreu reconhecia três razões para não ceder à tentação:

Potifar confiava nele (v.8). José não destruiria a credibilidade que levara cerca de dez anos para conquistar. A confiança adquirida com anos de dedicação e zelo, poderia ser destruída num instante de fraqueza.

Ela era mulher de outro homem (v.9). Provavelmente, ela fosse uma mulher muito bonita, vestisse roupas caras, estivesse bem maquiada e usasse um excelente perfume, porém, não era a mulher dele. José tinha consciência de que por mais bonita que ela fosse, pertencia a outro homem.

Ele temia a DEUS (v.9).  O temor a DEUS livrou José de cair em pecado. Na hipótese de pecar, Potifar nem saberia que José e sua esposa eram amantes, mas ele a rejeitou porque DEUS saberia. Somente o temor a DEUS nos mantém longe das armadilhas do pecado.

Apesar de todos os esforços de José, a túnica dele ficou nas mãos da mulher de Potifar. Ele perdeu as vestes, mas manteve a integridade do caráter.   

DEUS usa a adversidade para aperfeiçoar o caráter. E cabe perguntar: Do que você está disposto a abrir mão para manter um caráter íntegro?

Recursos financeiros (v.6). Potifar entregou tudo o que tinha nas mãos de José, inclusive o dinheiro dele. José não recebia salário por ser um escravo, mas administrava os recursos financeiros da casa e dos negócios de Potifar. Ele tinha autonomia para investir o dinheiro como bem entendia. Entretanto, para preservar seu caráter íntegro, ele abriu mão da gestão financeira.

Há pessoas que fazem qualquer coisa por dinheiro. Negligenciam a família, acabam com a saúde e se desfazem de amigos. Certa vez, perguntaram a John D. Rockefeller, o primeiro homem a se tornar um bilionário, quanto dinheiro um homem precisaria ganhar para ficar satisfeito. Então, ele respondeu: “Apenas um pouco mais”. O dinheiro não é maligno. Precisamos de dinheiro para comer, beber, vestir e para ter onde morar. Todos gostamos de dinheiro e gostaríamos de ter mais dinheiro. Não há nada de errado em desejar ter mais dinheiro e trabalhar para isso. A pergunta é: “A que custo?” Você se corromperia para ter mais dinheiro?

Posição social (v.9). Por duas vezes José perdeu a túnica.  A primeira túnica que lhe tiraram concedia a ele a posição de filho preferido (Gn 37.3). Jacó, seu pai, nutria um sentimento especial por José. Até aquele momento, ele era o único filho com Raquel, a esposa amada, por quem trabalhou quatorze anos. Jacó fizera um acordo com Labão, o seu sogro, de que trabalharia sete anos cuidando dos rebanhos em troca do casamento com Raquel. Depois de sete anos de trabalho, ao invés de entregar Raquel, Labão entregou Lia, a filha mais velha. Enganado por Labão, Jacó se viu obrigado a trabalhar mais sete anos para pagar o dote de Raquel. E, como se isso fosse pouco, Raquel esteve estéril por muitos anos até que veio a conceber de José. Por essa razão, José era tão especial.

Os irmãos de José, motivados pelo ódio e pelo ciúme, arrancaram-lhe a túnica de filho preferido. Isso também faz de José um tipo de JESUS. O filho amado de DEUS, JESUS (Mt 3.17), teve a Sua túnica arrancada (Mt 27.35). A segunda túnica tirada lhe dava a posição de administrador. No versículo 9, José afirmou: “Nesta casa eu mando tanto quanto ele”. José desfrutava de uma posição de confiança e de destaque. Ele era o chefe de todos os empregados da casa e administrava todos os bens de Potifar. Além, de desfrutar de uma posição invejável a vista dos escravos do Egito. Enquanto os vassalos trabalhavam debaixo dos açoites de seus capatazes, José gozava de uma posição social almejada por muitos egípcios. José abriu mão da posição social para manter o caráter íntegro. Reflita, o que mais importa é o seu status ou quem você realmente é?

Sua reputação (v.14). “Este hebreu”, a mulher de Potifar se refere a José de forma pejorativa. Ela reúne os empregados e macula a imagem de José, mentindo que ele tentara estuprá-la. A boa imagem de José com os empregados e com Potifar foi jogada na lama com a falsa acusação. A reputação que José levou anos para construir, foi destruída por uma mulher vingativa. José preferiu perder sua reputação e manter o seu caráter incorruptível. Abraham Lincoln  disse: “O caráter é como uma árvore e a reputação como sua sombra. A sombra é o que nós pensamos dela; a árvore é a coisa real”. Os irmãos de José arrancaram-lhe a túnica de filho preferido, mas não arrancaram a integridade dele. A mulher de Potifar tocou nas roupas de José, mas não tocou na alma dele. Ela lançou a reputação de José na lama, mas não sua índole. Vivemos numa sociedade preocupada com a reputação, mas desleixada com a integridade do caráter.

José abriu mão de recursos financeiros, de posição social e de uma ótima reputação, porém, em circunstância alguma, abriu mão de um caráter imaculado. A cada adversidade e sofrimento ele diminuía no conceito dos homens e crescia na plenitude de um caráter aprovado. Até que se tornou perfeitamente habilitado para governar a poderosa nação egípcia, preservando, assim, o mundo da destruição pela fome.

Pastor Olavo Vigil