
A brisa que soprava suave sobre o anoitecer pacato do lugarejo, trazia consigo as notas refinadas de uma canção entoada com delicadeza angelical.A relva polida por flores silvestres já regada pelo orvalho sob a luz que irradiava de um céu estelardava as cores precisas para a obra de um artista. Nada mais encantador que apreciar a brandura do conjunto de elementos que colocava a criação em harmoniosa celebração.O aroma amadeirado do cenário rústico que enfeitava o lugar parecia propor solenidade ao que estava por vir, e o silêncio quase doce daquele momento seria rompido por um estrondo fascinante de uma orquestra de tons, que oscilavam entre força e ternura, entoados pela meiguice do chorinho de um bebê.
– Nhééééééé… o sinal da rendição e da redenção. A vida irrompeu cheia de promessas e admiração. Os olhos daquela jovenzinha, a mãe do menino, o menino que quebrou o silêncio de Deus, renderam-se ao pequeno ser que traria novamente voz ao Amor. Seus afagos deram-lhe boas-vindas e sua chegada trouxe-nos boas-novas! Agora o cenário já não é mais brando, tranquilo. Agora toda a natureza em harmoniosa celebração recebe-o com majestoso louvor e adoração. Dos céus vêm sons celestiais, entoados por seres celestiais, num coro de muitas vozes, com todos os naipes, com todos os tons. Dos céus os luzeiros radiantes, intensos, apontam para o lugar onde agora há nobreza e majestade. Eis o Rei dos Reis! O Senhor dos senhores! O príncipe da paz!
Sim, Ele já era esperado. Maria o amou antes mesmo da sua concepção, o amou apesar da sua concepção. Sabia que sua escolha por Ele poderia lhe trazer perdas, mas Maria abriu mão de si mesma para receber em seus braços o salvador do mundo. Ela sabia que não era digna da sua grandeza, tampouco da sua graça. Não possuía o enxoval adequado para um Rei, não lhe daria mais que um estábulo para nascer. Não seria mais que uma simples súdita a amá-losem nada a oferecer. Mas seu colo amoroso poderia ser o aconchego do seu trono até ser menino feito, até crescer. Enquanto seu ofício de mãe fosse requerido ela estaria ali, pronta para ser, para ser o que havia sido designada: agraciada com todo o seu esplendor.
O autor agora se junta à sua criação. Sua voz que deu início a tudo, passará a ser ouvida e anunciada, face a face, em todas as línguas, por todas as nações. Seu chorinho maternal é a resposta do plano de amor redentor projetado antes mesmo do homem ser presenteado com a própria vida. Agora é presenteado com a Vida no sentido mais pleno, absoluto, completo e repleto de amor. Foi aquele chorinho de menino que dividiu as eras, que transformou a espera em marco da divina redenção.
Poderia não ser o lugar mais confortável ou aceitável para essa concepção, já que a expectativa vinha acompanhada da dedução de que um rei era digno de um palácio, de laços requintados, insígnias bordadas, vestes preparadas com tecidos finos, caros e raros. Mas fica claro, quanto aquele céu estelar, que mais importante que os elementos oferecidos foi a presença do Rei que atribuiu valor ao lugar.
O cenário singelo estava agora enobrecido pela presença do pequenino que chamaria a atenção daqueles que nada sabiam e daqueles que sabiam o suficiente para amá-lo ou rejeitá-lo. Homens simples, e sem credibilidade diante de outros homens, de atividades pastoris, prostraram-se diante do Rei de quem receberiam notável aceitação. Homens de grande reputação, com grande conhecimento e instrução, também viriam ao seu encontro para presenteá-lo e reverenciá-lo como é digno dos reis. Mas haveriam aqueles outros, que por medo ou rejeição, deixariam de receber todo o amor colocado à sua disposição para viver a mercê de suas próprias escolhas. Tolice ou não, diz respeito à sua autonomia, que dia-dia o move em alguma direção.
O que viria depois de sua chegada? Alguns esperavam uma luta armada em busca de libertação! Mas os olhos atentos daquele jovem, a quem mais tarde chamaria de pai, lhes seriam faróis não apenas de admiração, mas de amável instrução. José também se sentiu fragilizado diante de tamanha missão. O filho de Deus seria seu, por tempo determinado, mas extasiado de amor por seu pequenino, o faria crescer com dignidade, ensinando-lhe as coisas mais simples desde a tenra idade até deixar de ser seu tutor. Não lhe faltaria um ofício, não lhe faltariam princípios, porque antes de ensiná-lo viveu a arte de aprender. E ali, naquele cenário rústico, selou a chegada do seu primeiro filho com afagos cheios de amor.
Os momentos difíceis viriam e vieram, de fato. Mas foram os laços que os fizeram prosseguir. Não foi a cultura, o conhecimento ou cumprimento de rituais que os mantiveram ligados aos céus. Foi a presença do próprio Deus, personificada naquele menino, que deu-lhes sentido ao viver. Maria, aquela doce jovenzinha, aprenderia a mãe que deveria ser a medida que ia descobrindo e aplicando com sabedoria as lições que a vida lhe traria. José, o carpinteiro, estava por inteiro no seu papel de os conduzir. Aprenderia, com certeza, a ser o que nunca havia sido antes, pai de um bebê. Não um simples bebê, mas o bebê Jesus que transformaria o mundo e ofereceria redenção e graça, que tornaria o céu acessível a todos o quanto o recebessem e se rendessem a completude do seu amor.
Sim, o bebê Jesus que, mais tarde, se tornaria tema de grandes obras, de célebres poesias, de doces canções, de grandes encenações. Seria motivo de reuniões familiares, troca de presentes, uniões celebradas, infortúnios perdoados, imposições absolvidas. Traria sentido completo ao vazio dos corações.
Aquele menino, tão pequenino, de colinho em colinho, foi bem recebido e amado, foi celebrado como é digno de um Rei. Houve harmonia entre terra e céu! Houve cantoria em todas as regiões celestiais! Houve alegria, renovo e promessas de melhores dias.
Lá fora, no pacato lugarejo oriental, a brisa continuou soprando suave, mas as notas entoadas do canto celestial receberam acordes nunca antes ouvidos. Era Natal! O rei Jesus havia nascido! Paz na terra, a Deus Louvor! Eis o Reis dos Reis, o Senhor dos senhores, o Príncipe da Paz!
Juliana Vigil
